CHEGA e PS no Parlamento: os insultos foram à deputada Ana Sofia Antunes ou a Isabel Moreira?

No dia 12 de fevereiro, o Parlamento português foi palco de um intenso debate marcado por trocas de acusações e insultos entre deputados do partido CHEGA e do Partido Socialista (PS), o que rapidamente gerou uma enorme polémica a nível nacional.

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No entanto, o aspeto mais preocupante deste episódio triste não se limitou unicamente à confrontação entre os parlamentares, mas sim à forma como as informações foram disseminadas, tanto nas redes sociais como, de forma mais alarmante, nos meios de comunicação social. Estes últimos, cuja função primordial deveria assentar na objetividade, na veracidade dos factos e na defesa da integridade jornalística, acabaram por veicular relatos imprecisos e, em certos casos, manifestamente falsos.

Embora não se possa determinar de forma categórica a intencionalidade por detrás da propagação destas falsas notícias por parte dos órgãos de comunicação social, o impacto foi inequívoco: a deterioração da imagem pública do partido CHEGA.

Diante da gravidade da situação, impõe-se uma análise crítica e imparcial dos factos, de modo a compreender a dimensão do ocorrido e as suas implicações tanto para a dignidade do debate parlamentar como para a credibilidade do jornalismo nacional.

Lamentamos profundamente que a cobertura mediática deste episódio tenha revelado, mais uma vez, falhas significativas no cumprimento dos princípios éticos da comunicação social, o que permitiu a difusão de informações distorcidas que induzem o público em erro. Sabendo nós que o cidadão comum não tem uma atividade regular na política, este fenómeno assume particular relevância, dado que, infelizmente, muitos leitores tendem a acreditar em manchetes falsas.

Passo a passo do que realmente aconteceu:

1.º - No âmbito do debate parlamentar sobre necessidades educativas especiais, a deputada Diva Ribeiro, representante da bancada do CHEGA, proferiu a seguinte afirmação: "É curioso também que a Sra. Deputada Ana Antunes só consiga intervir em assuntos que envolvem, infelizmente, a deficiência."

A afirmação em questão, para além de não corresponder à realidade factual – dado que a deputada Ana Antunes exerce funções como coordenadora na Comissão de Assuntos Europeus e participa ativamente noutras iniciativas parlamentares, conforme comprovado por diversas fontes, incluindo reportagens de jornalismo independente e verificações do Polígrafo –, revela-se também profundamente deselegante no contexto do debate parlamentar.

Além de não acrescentar valor substantivo à discussão sobre necessidades educativas especiais, a declaração incorre numa abordagem redutora do papel de um parlamentar, ignorando o princípio fundamental de que cada deputado tem o direito de intervir nos temas que considerar pertinentes. É natural que um representante eleito demonstre maior envolvimento em matérias que lhe sejam particularmente sensíveis, o que em nada compromete a pluralidade do debate democrático.

Se o incidente tivesse cessado neste ponto, não haveria maior controvérsia, uma vez que a comunicação social teria relatado os factos com rigor, e a intervenção de Diva Ribeiro seria apenas um exemplo de menor elegância discursiva, passível de condenação moral, como efetivamente ocorreu. Neste contexto, a questão resumir-se-ia a uma formulação infeliz, cuja resolução poderia ter passado por um pedido de desculpas à deputada Ana Antunes. O problema desta polémica surge após esta afirmação.

2.º - Após a declaração de Diva Ribeiro, o ambiente no Parlamento tornou-se particularmente tenso, motivando defesas de honra e terminando com deputados de vários partidos (PSD, PS, BE e Livre) a acusarem o CHEGA de ter insultado a deputada do PS.

Já com os microfones desligados, houve uma troca de palavras acalorada entre as bancadas do CHEGA e do PS. No entanto, os insultos proferidos durante este momento de confronto não eram audíveis para quem acompanhava a sessão remotamente, uma vez que os microfones permaneceram desativados.

Neste contexto de desconhecimento generalizado por parte do público que assistia à sessão, a comunicação social passou a divulgar artigos e notícias que, repetidamente, foram replicados em massa. Essas reportagens alegavam que, após o discurso de Diva Ribeiro, a bancada do CHEGA teria insultado a deputada Ana Antunes com expressões como "aberração", "não sei quê da esquina", "pareces uma morta" e "drogada".

Meios de comunicação social como o Expresso, a SIC Notícias, o Público e a CNN Portugal não hesitaram em produzir uma série de artigos que disseminaram esta informação incorreta. A veracidade dos factos foi negligenciada e, como resultado, muitos cidadãos continuam a acreditar que os insultos foram direcionados à deputada Ana Antunes, como se verifica pelos comentários nas redes sociais (Público).

Então, o que realmente aconteceu?

Antes de mais, é crucial salientar que a análise objetiva dos factos deve ser fundamentada no rascunho oficial disponibilizado pelos serviços da Assembleia da República.

No referido "borrão" (conforme ilustrado na imagem abaixo, referente ao Borrão 88, Primeira Parte), que é o rascunho preliminar antecedente à publicação oficial no Diário da Assembleia da República, constam algumas das expressões proferidas por vários deputados. Embora estas palavras tenham sido tornadas públicas, a verdade é que o momento foi marcado por intensos apartes, o que causou ruído na transcrição imediata das intervenções.

Após a intervenção de Diva Ribeiro, os escrivães da Assembleia da República reportaram as reações, com aplausos e expressões de aprovação vindo da bancada do CHEGA. Em contraste, do lado oposto, foram anotados protestos provenientes do PS, BE, PCP e Livre, que expressaram o seu descontentamento gritando: "Tenham vergonha!"

Entre as diversas manifestações, a deputada Isabel Moreira destacou-se como uma das vozes mais ativas na contestação à bancada do CHEGA. De acordo com o registado no rascunho oficial, o seguimento dos acontecimentos após uma intervenção do Presidente em substituição, Rodrigo Saraiva, é o seguinte:

[Isabel Moreira protesta]

Deputado Filipe Melo (CH): — Vens para aqui pintar as unhas! Mete mais tabaco nisso!

*(Nota editorial: Embora a afirmação possa ser considerada injuriosa, evoca um episódio verídico ocorrido em 2018, amplamente divulgado pela comunicação social).*

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Portanto, devemos ter cuidado com as expressões que usamos e com aquilo que indicamos.

[Continuação de protestos do PS e do Livre e contraprotestos do CH]

Neste sentido, a deputada Ana Sofia Antunes pediu à Mesa para intervir numa defesa da honra, enquanto as bancadas mantinham os protestos e exigiam que o deputado Filipe Melo se calasse.

A Deputada Ana Sofia Antunes (PS): — Defesa da honra da bancada.

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Muito bem.

O Deputado Filipe Melo (CH): — Pessoal ou da bancada?!

[Novos protestos da deputada Isabel Moreira]

O Deputado Filipe Melo (CH): — Ainda vais comprar o verniz…

[Vozes do PS e do Livre: — Está calado!]

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Tem então a palavra para a defesa da honra.

A Deputada Marina Gonçalves (PS): — Está calado, respeita os outros!

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Tem até dois minutos e eu pedia à Câmara que desse condições para que os trabalhos decorressem.

O Deputado Filipe Melo (CH): — Defesa da honra pessoal ou da bancada?

A Deputada Marina Gonçalves (PS): — Respeita os outros!

[Protestos do deputado Filipe Melo]

[Vozes do PS: — Está calado!]

A intervenção seguinte coube a Marina Gonçalves, uma vez que a defesa da honra da bancada deve ser efetuada pela direção do grupo parlamentar. Ana Sofia Antunes apenas o poderia fazer em nome pessoal no final dos trabalhos. No entanto, o PS optou por responder de imediato, enfrentando constantes apartes por parte dos deputados do CHEGA, nomeadamente Pedro Pinto. A intervenção de Marina Gonçalves foi aplaudida pelas bancadas do PS, BE, PCP, Livre e por alguns deputados do PSD.

Em seguida, Rita Matias tomou a palavra para responder, uma falha regulamentar posteriormente reconhecida pela Mesa, dado que deveria ter sido a deputada Diva Ribeiro a assumir a palavra.

[Protestos do PS]

O Deputado Filipe Melo (CH): — Fomos nós?

A Deputada Rita Matias (CH): — Querem ouvir outra vez?

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Portanto, fica aqui o mea culpa da Mesa nesta falha.

A Deputada Isabel Moreira (PS): — E mantêm o que disseram!

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Passando à frente e continuando na apresentação de iniciativas legislativas…

O Deputado Filipe Melo (CH): — Vai pintar as unhas!

A Deputada Isabel Moreira (PS): — Vai pagar as pensões que deves aos teus filhos!

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — … assim que a Câmara der condições.

O Deputado Filipe Melo (CH): — Não eras tu que estavas ligeiramente drogada?

*(Nota editorial: A afirmação de Filipe Melo evoca uma declaração proferida em 2012 pela própria deputada Isabel Moreira em sede de plenário ["Estou um bocado drogada. Drogas lícitas"], justificada na altura à agência Lusa por motivos de uma quebra de tensão decorrente de uma cirurgia dolorosa, conforme documentado pela revista Visão).*

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Srs. Deputados…

O Deputado Filipe Melo (CH): — És uma aberração, ganha vergonha!

[Protestos do PS e contraprotestos do CH]

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Srs. Deputados, antes que eu comece a dizer o nome um a um, vamos lá dar condições. Podemos continuar os trabalhos?

A Deputada Isabel Moreira (PS): — Paga as pensões aos teus filhos!

*(Nota editorial: A alegação proferida pela deputada Isabel Moreira carece de veracidade. O deputado Filipe Melo enfrentou uma penhora executiva em 2022 devido a uma dívida de cariz comercial com uma instituição de ensino, não estando associada a incumprimentos de natureza alimentar ou regimes de partilha de menores).*

O Deputado Filipe Melo (CH): — Mete mais tabaquinho nisso!

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Antes da apresentação da iniciativa legislativa do Grupo Parlamentar do Livre, temos pedidos de interpelação à Mesa.

[Protestos da deputada Isabel Moreira]

O Deputado Filipe Melo (CH): — Tens de pôr mais tabaco!

O Presidente (Rodrigo Saraiva): — Sr. Deputado Filipe Melo, Sr.ª Deputada Isabel Moreira, peço que nos deem condições para continuarmos os trabalhos. Pode ser? Muito obrigado.

A Deputada Joana Mortágua (BE): — Sr. Presidente, uma interpelação à Mesa sobre a condução dos trabalhos. Não sobre aquilo que foi dito em 'on', e que toda a gente pôde ouvir relativamente à deputada Ana Sofia Antunes, mas sobre aquilo que foi dito em 'off', dizendo que desta bancada se ouviu bem e que espero que fiquem registados o bullying relativamente a uma pessoa com deficiência e as ofensas que foram feitas por parte da bancada do Chega.

[Aplausos do BE, PS, PCP, Livre e PAN]

O Deputado Filipe Melo (CH): — Mas qual bullying? Estás parva?

A Deputada Joana Mortágua (BE): — … e espero que fique registado que, no momento em que estamos a discutir projetos sobre apoio a pessoas com deficiência, a única bandeira que aquela bancada tem a erguer é a bandeira da vergonha.

[Continuação de aplausos do BE, PS, PCP, Livre e PAN]

Com o acesso ao rascunho dos registos oficiais, hoje amplamente esmiuçado, conclui-se que as injúrias proferidas em sede parlamentar não foram dirigidas à deputada Ana Sofia Antunes, mas sim trocadas diretamente com a deputada Isabel Moreira.

Na ótica deste canal, é de lamentar que os recursos dos contribuintes sirvam para financiar este tipo de circo mediático. Num contexto de múltiplos desafios nacionais, o que se retirou da sessão parlamentar foi uma troca de acusações infundadas de ambas as partes, cuja resolução pedia urbanidade e retificações mútuas, especialmente pelos intervenientes centrais.

Uma retratação por parte da deputada Diva Ribeiro relativamente ao teor impreciso da sua intervenção inicial teria sido a atitude mais adequada, permitindo esclarecer se a formulação infeliz correspondia à linha de enquadramento apresentada de seguida na sessão.

Na sequência destes acontecimentos, o Partido Socialista e os quadrantes de esquerda apelaram a uma revisão do regulamento e das regras de conduta parlamentar, admitindo sanções por falta de urbanidade, ao mesmo tempo que endureceram o discurso político face à bancada do CHEGA. Contudo, importa sublinhar que episódios de crispação verbal na Assembleia da República não constituem um fenómeno inédito na história parlamentar portuguesa, existindo múltiplos precedentes que serão abordados factualmente em artigos futuros.

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