Fascismo à Deriva: Como a Banalização das Palavras Ameaça a Democracia

Fascismo à Deriva: Como a Banalização das Palavras Ameaça a Democracia

Fascismo à deriva - Cronista Miguel Bento Alves

As expressões “fascista” ou “fascismo” percorrem hoje o debate e a sociedade política como algo perdido, à deriva, banalizado e separado da sua origem histórica e desligado da sua estrutura enquanto conceito. Transformaram-se em palavras que flutuam de conversa em conversa, usadas seja como arma retórica, ora como desabafo emocional, raramente como uma rigorosa categoria política. Este deslocamento revela não apenas um empobrecimento intelectual, mas também uma perda de responsabilidade cívica num tempo em que o espaço público exige discernimento, memória e capacidade de distinguir divergência legítima de autoritarismo genuíno.

O insulto tornou-se automático. Nas redes sociais, nos debates televisivos, nos comentários rápidos onde se pensa pouco e se reage muito, “fascista” é aplicado a qualquer ideia firme, a qualquer crítica contundente ou a qualquer posição cultural que escape às sensibilidades hegemónicas. Esta banalização cria um terreno onde a palavra já não ilumina, apenas obscurece. A facilidade com que se lança o rótulo esvazia o conceito, retirando-lhe o peso histórico que deveria carregar. E é precisamente neste esvaziamento que reside o perigo: quando fenómenos autoritários reais surgirem, serão inevitavelmente confundidos com o ruído habitual e dificilmente identificados com a gravidade que merecem.

A verdadeira matriz do fascismo não pode ser reduzida a gostos pessoais, ideias moralmente desconfortáveis ou convicções politicamente invulgares. O fascismo de Mussolini foi uma construção totalizante: a fusão entre Estado, sociedade e identidade nacional; a glorificação da violência; a mobilização permanente; o apagamento do indivíduo; o culto do líder e a destruição consciente do pluralismo democrático. Confundir isto com um tweet polémico, com um juízo conservador ou com uma visão social dissidente é um sinal de ignorância histórica que empobrece qualquer discussão séria.

Quem é alvo do rótulo não deve ceder à pressão emocional do insulto. A disputa democrática nunca foi, nem poderá ser, um concurso de popularidade moral. As ideias devem ser defendidas com firmeza, sobretudo quando o ambiente político é dominado por leituras superficiais e reações automáticas. Vergar-se por medo do rótulo apenas reforça a lógica repressiva da linguagem, abrindo espaço a um conformismo intelectual que nada tem de democrático. A liberdade de expressão implica responsabilidade, mas também implica coragem para sustentar posições sem capitular perante acusações sem fundamento.

Esta responsabilidade é, no entanto, bilateral. Cada participante do espaço público deve assumir o peso das suas palavras, reconhecer a influência que exerce, seja num pequeno comentário digital, numa intervenção académica ou num debate político, e compreender que a linguagem não é neutra. Usar conceitos históricos de forma leviana degrada o rigor necessário à vida democrática. Quem se diz democrata deve assumir a condenação inequívoca de qualquer forma de autoritarismo, de qualquer lado do espectro ideológico, e compreender que a fidelidade aos princípios da democracia não pode depender de simpatias partidárias.

O fascismo, enquanto fenómeno histórico, não pode ser instrumentalizado como arma moral contra tudo aquilo que incomoda. Fazer isso é obscurecer a memória, é perder a capacidade de reconhecer os padrões que conduzem a regimes totalitários e é, por fim, abdicar da maturidade política que as sociedades livres exigem. Só com rigor conceptual conseguimos distinguir o que é dissidência saudável do que é ameaça real; só com memória histórica conseguimos construir uma esfera pública onde divergências se confrontam com argumentos e não com insultos.

No final das contas, a banalidade do fascismo revela mais sobre o estado frágil do nosso debate público do que sobre aqueles que são alvo do rótulo. Uma democracia adulta não teme ideias firmes, nem se desorienta perante divergências profundas; teme, isso sim, a erosão da linguagem e a perda de rigor que impedem a identificação dos perigos autênticos. Recuperar o sentido histórico do fascismo não é um capricho intelectual, é uma urgência cívica. Só uma sociedade que conhece o peso das palavras pode reconhecer os contornos do autoritarismo quando ele verdadeiramente emerge. E só cidadãos conscientes da sua responsabilidade discursiva podem impedir que o espaço público se transforme num campo onde o insulto substitui o argumento.

O desafio, portanto, não é apenas rejeitar o uso leviano do termo “fascismo”, mas restaurar a integridade do discurso democrático. Exige coragem para pensar, maturidade para discordar e lucidez para distinguir entre o que é ofensivo e o que é perigoso, entre a controvérsia e a tirania. Uma comunidade política que domina estas distinções não teme o caos da liberdade; orienta-se por ele. E é nessa capacidade de discernimento, persistente, lúcida e historicamente informada, que se decide a qualidade da nossa vida democrática e a resistência das nossas instituições perante qualquer forma de autoritarismo que o futuro possa trazer.

Politicamente Incensurável

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