O Corolário Trump à Doutrina Monroe – uma nova legitimação da política externa americana

O Corolário Trump à Doutrina Monroe 

O Corolário Trump à Doutrina Monroe - A opinião do cronista Duarte Caetano

Os tempos que vivemos são verdadeiramente complexos. O direito internacional deixou de ser o ponto marginal que nunca deveria ser excedido. Passou a ser alvo de descrédito, um conjunto de normas nos quais os países mais vulneráveis encontram algum tipo de falsa proteção. A Trumpização da política externa americana abriu precedentes para uma nova ordem mundial. A intervenção na Venezuela e a pretensão da Gronelândia põem em causa o direito à autodeterminação e abrem debates sobre valores humanistas que tomávamos como garantidos.

O relatório de estratégia de segurança nacional norte-americana é uma lente de análise à compreensão dos comportamentos geopolíticos que marcarão os próximos tempos. Para aqueles que desejam entender porque o mundo está a caminhar numa via bélica e a descartar as conquistas da paz, este texto pode ser vir como espelho dos princípios que organizam a nova ordem global.


O QUE É A DOUTRINA MONROE?

Esta tese foi apresentada no Congresso norte-americano pelo seu 5º presidente, James Monroe, que governou de 1817-1825. Este participou na guerra da independência, desempenhou vários cargos públicos e contribuiu para o desenvolvimento do sentimento nacionalista e afirmação externa dos Estados Unidos da América.

Para compreender o impacto da sua declaração é necessário conhecer o contexto em que foi proferida. No início do século XIX, os ideais iluministas prosperavam e dissipavam-se à velocidade da proeminência do capital industrial. O ser humano, assente na sua racionalidade, começava a contestar a concentração de poderes e a dar primazia à defesa dos seus direitos naturais: liberdade, igualdade e autodeterminação. A crença numa sociedade assente na soberania popular inspirava as sucessivas revoluções liberais e movimentos independentistas que se sentiriam ao longo de todo o século.

Neste cenário, os valores que brotavam desde o início do século anterior no continente europeu rapidamente contagiaram o mundo ocidental. Perante isto, vivia-se um momento em que as potências europeias perdiam a sua hegemonia no continente americano e ameaçavam os desígnios independentistas dos países recém-formados.

É, portanto, contra esta ameaça que J. Monroe faz uma declaração política, no ano de 1823. A sua proposta era uma clara afronta ao poderio das potências ultramarinas, em especial ao Império Britânico. O presidente afirmava que o hemisfério ocidental não estava mais aberto a colonizações forçadas e interferências externas. A sua tese sustentava-se em três princípios: não-colonização, não-intervencionismo e separação de esferas de influência, ou seja, a europa deveria deixar-se de imiscuir nos assuntos que apenas ao continente americano diziam respeito. Estamos, portanto, perante um novo posicionamento geopolítico. Entendia-se que a partir deste momento estas duas esferas eram sistemas distintos, cujas decisões eram tomadas consoante os seus próprios interesses, agora independentes.

 

O que se entende por Corolário Trump à Doutrina Monroe?

Desconhecendo a semântica da palavra, recorri ao dicionário, onde corolário é definido como “uma conclusão ou consequência lógica que decorre diretamente de um princípio, regra ou doutrina já estabelecida.” Analisando ainda a sua etimologia, tem origem no latim corollarium, que significa “pequeno acréscimo”. Ora, foi precisamente isso que Trump fez à Doutrina Monroe.

Primeiro apropriou-se dela, para depois adaptá-la aos seus desejos expansionistas. Assim, criou uma nova base de legitimação da estratégia de política externa americana. Trump molda a doutrina ao século XXI, mas também ao seu egocentrismo. Ao afirmar os EUA como potência hegemónica do hemisfério ocidental, recusa interferências de potências externas ao seu espaço de influência, não apenas pela via militar, mas também por influências estruturais no setor económico, energético ou tecnológico. Neste contexto, ao referir-se a potências externas, Trump já não se dirige aos países europeus, mas sim às potências globais, como China e Rússia.

Para compreender esta questão, façamos novamente um recuo temporal, agora até às últimas eleições americanas. É preciso estar ciente da maneira como Trump conseguiu retornar ao poder. O movimento MAGA focou-se meticulosamente em despertar o ressentimento da classe média americana, farta do intervencionismo militar em conflitos globais, nos quais os EUA atuavam como “policias do mundo”. Esta faixa social estava particularmente revoltada, e com motivos para tal. Brutalmente taxados, com o poder de compra a diminuir pelo sufoco da inflação e com o desaceleramento da economia americana, indignavam-se com um Estado que lhes tinha virado as costas e desperdiçava milhares de milhões de recursos a travar guerras (ou provocá-las) que em nada interessavam aos contribuintes americanos, apenas beneficiavam as suas elites.

 

Como é que esta doutrina passada do plano teórico para o prático?

Trump fez campanha a prometer uma mudança na política externa. E é exatamente essa alteração que nos é apresentada na estratégia de segurança nacional, que pode ser resumida neste princípio - A rejeição do intervencionismo permanente sem abdicar do controlo estratégico. O presidente americano apresentou novas prerrogativas para as relações geopolíticas. Como é óbvio, nunca é posta em causa a supremacia americana na ordem mundial. Apenas é reformulada a forma como a mesma é e será garantida. O princípio anteriormente abordado reflete-se no seguinte objetivo: restaurar a primazia americana no hemisfério ocidental, através do “estabelecimento ou expansão de acesso a localizações estrategicamente importantes”.

Passemos os olhos pelos elementos gerais. Há muita informação a ser retirada, mas evitarei entrar em detalhes profundos que poderão fornecer conteúdo para outros textos.

Trump entende que a forma como os EUA se posicionaram na geopolítica dos últimos trinta anos foi errada. A postura de “policias do mundo” fê-los intervir excessivamente em conflitos regionais que em nada beneficiaram o país. Agravou a sua dívida, provocou a morte de milhares de cidadãos e abriu portas à envolvência de outras potências em conflitos semelhantes e a ameaçar as suas cadeias de abastecimento estratégicas.

As normas agora propostas resultam de dois conceitos – “soft power” e paz através da força. O desejo da administração Trump é assegurar os direitos naturais dos cidadãos e priorizar o seu bem-estar. Logo, a política externa é um meio de alcançar esse mesmo objetivo, seja pela via diplomática ou militar.

O “soft-power” resulta na concretização dos objetivos de um país pela via da influência e persuasão, mas sem recorrer à força militar. Desde o fim da segunda Guerra Mundial, o país tornou-se a principal influência da matriz cultural do mundo ocidental, usando isso como propaganda. Para além disso, resulta da utilização do poder económico e supremacia diplomática para alcançar acordos que concretizem os interesses americanos. Através da diplomacia não-convencional, Trump pretende “extinguir conflitos entre nações com capacidade nuclear ou guerras violentas movidas por ódios seculares.”

Por outro lado, o atingimento da paz através da força é essencial. O presidente americano recorda-nos que a predisposição para o não-intervencionismo remonta aos princípios fundacionais do seu país. Logo, há um patamar muito elevado para que se constitua uma intervenção justificada. No entanto, essa não é impossível de existir, como já experienciámos. O poder militar americano é então uma chave de acesso à paz no mundo, pois, na sua visão, todos os países que temerem a supremacia dos EUA, pensaram duas vezes antes de atentar contra os seus interesses. Em suma, os comportamentos dos outros países só devem ser alvo de especial atenção se pretender ameaçar a soberania americana em diversas áreas.

É curioso referir ainda o recurso a Alex Hamilton. Utilizando a sua tese, a administração americana teoriza a sua estratégia de defesa nacional na ideia de que os EUA nunca devem depender de qualquer potência externa por componentes essenciais. Logo, isso justifica a expansão do acesso americano a matérias-primas, terras raras ou recursos energéticos. Tudo o que foi anteriormente abordado cria uma legitimação, uma ilusão, um falso motivo para os EUA atuarem na Venezuela, no Irão e agora na Gronelândia.

No que concerne à nossa querida Europa, só imagino duas vias possíveis. A primeira será manter o rumo que já leva. Manter a dependência americana e continuar numa vulnerável posição que só manterá a nossa desvalorização a nível lobal. A segunda, que recomendo vivamente, é refletir sobre a necessidade de uma reforma profunda do projeto europeu. Se queremos manter-nos politicamente relevante, deveremos abandonar dependência de estrangeiros e acabar com a ideia de que somos herdeiros de todos os males do mundo. Ainda há esperança, falta-nos o desejo de mudar.

Para concluir, tenhamos presente esta ideia muito claramente: Trump certamente tem muitos defeitos, mas não deve ser tomado por ignorante. Sabe perfeitamente o que pretende e, acima de tudo, como o deve alcançar, independentemente se isso respeita ou não o direito internacional. Com ele vigora a lei do mais forte e, gostemos ou não, os EUA continuam a ser o país mais forte do mundo.  O seu estilo político não está ancorado em ideologias tradicionais, mas sim no que o seu discernimento entende que é o mais correto para o país que lidera, dependendo do contexto. Mesmo que para nós, europeus, as medidas ultrapassem os níveis do delírio, Trump não está minimamente preocupado, porque os seus olhos só idealizam um caminho – a hegemonia americana a todos os níveis, sem olhar a meios para atingir os fins.

 


Politicamente Incensurável

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