Ventura perde em tribunal, mas ganha força política com a polémica dos cartazes
Hoje, acaba de sair a decisão de que Ventura é obrigado a
retirar os cartazes que dizem explicitamente: “Os ciganos têm de cumprir a
lei”. Embora se possa debater a ofensividade desta afirmação e o teor da
mesma, uma coisa é certa: isto é uma dupla vitória.
Os ciganos e a associação de ciganos ganham no poder
judicial, mas Ventura ganhou no poder do povo e agora pode catapultar a
narrativa de que o sistema judicial está “comprado” e que os próprios tribunais
não respeitam a liberdade de expressão. Isto, para o seu eleitorado, permite a
sua fidelização e, para as pessoas mais descontentes com o sistema, que ainda
hesitariam em votar Ventura, torna-se mais um motivo para votar nele.
Portanto, sim: embora Ventura saia derrotado em tribunal,
Ventura sai vitorioso no poder do povo, e esse é o que realmente importa para
ser eleito.
Do ponto de vista estratégico, Ventura tinha pouco a perder
e muito a ganhar com estes cartazes. Passava a sua mensagem de que, pelo senso
comum, muitos ciganos, passados anos e gerações no país, ainda se encontram à
margem da lei. E isto já nem sequer é dito apenas pelo partido CHEGA e os seus
deputados; já foi referido pelo deputado João Almeida do CDS-PP no Parlamento (vídeo
no final do artigo), onde ele próprio faz referências a comunidades em Portugal
que se encontram à margem da lei.
Ou seja, pelo senso comum, é mais que sabido que há uma
parte considerável de ciganos que se encontra à margem da lei, seja na
criminalidade, seja no pagamento de impostos ou em negócios.
A verdade é que esta “parte considerável de ciganos” é
impossível de calcular, dado que os relatórios desenvolvidos pelas entidades
governamentais não recolhem dados por etnia -seja nos relatórios de
criminalidade, nos relatórios da Segurança Social ou noutra temática qualquer.
E este é um dos maiores problemas de Portugal: tentar resolver problemas em
determinadas comunidades sem termos noção do termo per capita, que permite identificar
qual etnia ou nacionalidade está mais sobre representada e em que temática.
E isto não é racismo, são factos matemáticos. Por exemplo, é
sabido que os portugueses têm um grave problema com a violência doméstica e, se
houver um grande fluxo migratório para países estrangeiros que não têm este
tipo de violência, é importante que esse país estrangeiro faça uma distinção
entre nativo e português, porque não é justo para o país que os acolhe começar
a ser culpado de crimes que são tipicamente portugueses.
Concluindo, Ventura sai beneficiado e, se antes já tinha
praticamente o primeiro lugar garantido segundo as sondagens, Ventura acaba
agora de garantir o seu lugar no pódio nestas eleições legislativas.
Os ciganos têm de cumprir a lei, os portugueses têm de
cumprir a lei, os brasileiros têm de cumprir a lei e os indianos também. Todos
são iguais perante a lei e, se há determinada comunidade que está sobre
representada no não cumprimento da lei, esta deve ser exposta e avisada, para
que depois possa ser corrigida e integrada.
O tribunal falhou a defender o direito mais fundamental de
todos e isto deve ser um alerta para nós, enquanto cidadãos, sobre o que está a
acontecer. Mas, para Ventura, enquanto deputado e candidato, isto é uma
vitória.
