O “clubismo político” e a estratégia de Ventura: análise da candidatura presidencial
Antes de mais, convém deixar isto bem claro: este artigo não pretende convencer ninguém a votar em André Ventura, ou em qualquer outro candidato. Trata-se exclusivamente de uma análise sobre o fenómeno do “clubismo político”, que, embora não seja benéfico para uma democracia saudável, é, paradoxalmente, o melhor que pode acontecer a um partido.
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| És do CHEGA? O Ventura precisa do teu voto para presidente da República. (Portugal Inigualável) |
Do bipartidarismo ao tripartidarismo clubístico
Durante décadas, PS, PSD e até a CDU viveram numa lógica de clubismo político, em que muitos eleitores votavam não por ideais ou por pessoas, mas simplesmente pelo símbolo. O PS com a mão fechada, a CDU com a foice e o martelo e o PSD com a seta ou os dedos em V.
Embora esta prática não seja de todo saudável para uma democracia aberta e informada, foi exatamente isto que aconteceu durante mais de 50 anos, tendo terminado apenas, quando o CHEGA se tornou a segunda força política do país.
Se, por um lado, é positivo que o CHEGA tenha quebrado o bipartidarismo clubístico, a verdade é que o clubismo não desapareceu — apenas mudou de forma. Hoje, ao invés de eleitores fiéis a partidos, passamos a ter eleitores fiéis a pessoas, neste caso a pessoa André Ventura, uma característica típica de líderes que recorrem ao populismo.
Ou seja, passámos de um bipartidarismo clubístico partidário, para um tripartidarismo clubístico pessoal e partidário.
E é neste sentido que se torna fulcral falar sobre a fidelização dos eleitores de André Ventura.
O eleitorado fiel a Ventura
André Ventura alcançou inúmeros feitos ao longo destes seis anos, mas o seu maior sucesso foi a fidelização dos seus eleitores — algo que se reflete em duas métricas fundamentais: o número de militantes do partido e o apoio incondicional que o CHEGA recebe no mundo digital (redes sociais).
Em termos de militância, o CHEGA já ultrapassou os 70.000 membros e cresce a um ritmo impressionante, posicionando-se como o terceiro maior partido português em termos de militância. Este crescimento, além de refletir maiores entradas de dinheiro para o partido, traduz-se sobretudo na sua capacidade de mobilização, organização local e influência política, elementos fulcrais para consolidar o poder do partido a longo prazo.
Mas se a militância já é um feito histórico dado o número de anos de existência do partido, é no mundo digital que André Ventura realmente se destaca. Além do gigantesco número de seguidores e visualizações, a sua “fanbase digital” demonstra uma fidelidade extrema ao líder: independentemente das declarações contraditórias ou polémicas de Ventura, os seguidores continuam a apoiá-lo e a defender o partido de forma absoluta e é este nível de lealdade que lhe garante um voto quase incondicional por parte desses seguidores, independentemente das ações ou dos cargos a que André Ventura se candidate.
E é também neste sentido de fidelização de eleitores que André Ventura decide candidatar-se a estas eleições. Como assim?
Abaixo apresento, na minha ótica, as 4 principais razões pelo qual Ventura se candidatou a estas eleições.
Quatro razões para a candidatura presidencial de Ventura
1. Ampliar a presença do CHEGA nas eleições autárquicas
A primeira razão prende-se com as eleições autárquicas de 2025.
O CHEGA precisava de quebrar a narrativa do “partido de um homem só” e, para isso, tinha necessariamente de conquistar pelo menos um município. Nesse sentido, Ventura anunciou, cerca de um mês antes das eleições autárquicas, a sua candidatura e, com isso, conseguiu marcar presença em inúmeras entrevistas na comunicação social, garantindo que o partido se mantivesse no centro do debate mediático.
Como não há “mau marketing”, Ventura utilizou esse espaço mediático para passar a sua mensagem — uma mensagem de esperança e de ambição dirigida ao eleitorado que lhe tinha garantido o segundo lugar nas legislativas de 2024.
A mensagem de André Ventura era clara: o objetivo passava por conquistar 30 municípios, contando com o apoio de todos os que haviam votado no CHEGA em 2024. No íntimo, Ventura sabia que esse objetivo era irrealista, mas, na política, mais importante do que a viabilidade imediata é a existência de um propósito mobilizador.
Ao estabelecer esta meta, Ventura procurava incentivar os seus eleitores a votarem noutros candidatos do partido, consciente de que só através do poder municipal seria possível quebrar a narrativa do “homem só” — e, acima de tudo, governar, num cenário onde o CHEGA ganhe as legislativas.
Embora Ventura não tenha alcançado esse objetivo, algo que o próprio assumiu no dia das autárquicas, o resultado foi, ainda assim, histórico. O principal objetivo foi cumprido: o CHEGA conquistou três câmaras municipais, consolidou a sua presença no poder local de forma abismal e quebrou a narrativa de que o partido se resume a André Ventura.
Pela primeira vez, o partido passou a ter três novas caras, três novos líderes - líderes que não são André Ventura.
✅Primeiro Objetivo Concluído - Com a sua candidatura a presidente da república, Ventura conseguiu fazer "publicidade" para as autárquicas e assegurar a vitória em 3 municípios.
2. Preencher a lacuna de um candidato presidencial
Com o CHEGA consolidado como o maior partido da oposição, era crucial mostrar ao eleitorado que o partido estava presente em todas as frentes — e nessas frentes para ganhar.
Apesar de o CHEGA contar com ativos como Rita Matias e Bruno Nunes, que são os nomes que mais se destacam dentro do partido, nenhum dos dois poderia candidatar-se. Rita Matias, pela sua idade, não reunia as condições para avançar, além de estar a concorrer por Sintra; Bruno Nunes, por sua vez, candidatava-se por Loures. Não restava, assim, uma alternativa consensual, e o partido encontrava-se dividido quanto ao apoio a Gouveia e Melo — uma hipótese que Ventura chegou a equacionar antes de anunciar a sua própria candidatura.
Perante esta divisão interna, Ventura assumiu a candidatura, mesmo sem apoio unânime dos seus eleitores que demonstravam descontentamento nas redes sociais. A verdade é que os eleitores do CHEGA preferem Ventura como Primeiro-Ministro e não como Presidente, porque é enquanto primeiro ministro, no poder legislativo, que André Ventura poderá realmente fazer a "diferença", como o mesmo tanto indica.
Uma coisa é certa — a sua entrada na corrida presidencial foi um verdadeiro “all-in” estratégico, dado que com estes dois motivos apresentados o mesmo consegue:
- testar a sua popularidade (fidelização de eleitores);
- manter o partido no centro do debate político para as eleições autárquicas;
✅ Segundo Objetivo Concluído - Com a sua candidatura, Ventura conseguiu preencher a lacuna e procura agora uma forma de “vingança” política, uma vez que, nas eleições presidenciais de 2021, ficou em 3.º lugar, atrás de Ana Gomes, quando o seu objetivo era ultrapassá-la. Importa realçar que embora o objetivo não tenha sido alcançado, Ventura obteve um resultado expressivo tendo em conta que o partido contava com apenas dois anos de existência (3º lugar, 11,90% e 496.733 votos)
3. A entrada de Cotrim e o teste à base eleitoral do CHEGA
A cereja no topo do bolo para a sua candidatura é a entrada de João Cotrim de Figueiredo na corrida. Ventura, embora não o diga publicamente, percebeu que uma parte significativa do seu eleitorado foi perdida nas eleições europeias. O resultado foi desastroso para o CHEGA e permitiu concluir que, em 2024, a sua base eleitoral se situava entre os 8% e os 10% — valores coincidentes com eleições em que Ventura não foi candidato, como nos Açores, na Madeira ou nas próprias europeias.
E a verdade é que Cotrim demonstrou capacidade para captar esse eleitorado. Nas europeias, Cotrim de Figueiredo obteve praticamente o dobro da votação do seu partido: Cotrim alcançou 9,08%, enquanto a Iniciativa Liberal ficou nos 4,94%. Já o CHEGA passou de 18,07% nas legislativas para 9,79% com o seu candidato europeu, Tanger Correia.
Estes números indicam que uma parte relevante dessa perda foi transferida para Cotrim — não na totalidade, mas de forma significativa, até porque existe um eleitorado da IL que se sente próximo do CHEGA e vice-versa. Esta realidade confirma-se nas atuais eleições, com sondagens a indicar que o eleitorado jovem (dos 18 aos 35 anos) revela simpatia tanto por Cotrim como por Ventura.
Ciente desta informação, já evidenciada pelos resultados das eleições europeias, Ventura precisava de enfrentar diretamente Cotrim, neutralizando o maior ativo da Iniciativa Liberal através de um confronto político direto.
Caso Cotrim consiga chegar à segunda volta e vencer as presidenciais, um eventual bom desempenho como Presidente da República acabará por beneficiar indiretamente a Iniciativa Liberal, dado que reforça a sua credibilidade política e prejudica o CHEGA na disputa pelo eleitorado indeciso.
Pelo contrário, se Ventura chegar à segunda volta e afastar Cotrim da corrida, reduzirá João Cotrim de Figueiredo à irrelevância política de um cargo europeu, que, na prática, mobiliza pouco interesse junto da maioria dos eleitores portugueses.
Embora possa parecer paradoxal que liberais e conservadores consigam captar o mesmo eleitorado, a verdade é que Cotrim e Ventura não são assim tão diferentes: apesar de divergirem na dimensão económica, apresentam semelhanças claras na forma de comunicação política e no apelo a eleitores descontentes com o sistema.
🎯Terceiro Objetivo - Em curso
4. Medir a verdadeira dimensão do eleitorado de Ventura
Embora Ventura afirme que entra nestas eleições para ganhar, sabe que as suas probabilidades numa eventual segunda volta são reduzidas. Ainda assim, não dá um ponto sem nó. Uma presença na segunda volta permitir-lhe-ia, desde logo, olhar para além das presidenciais e projetar o seu desempenho nas próximas eleições legislativas, percebendo qual é a real dimensão do eleitorado que consegue mobilizar.
Se, numa segunda volta, Ventura alcançar valores próximos dos 26%, isso indicará a possibilidade de transpor essa percentagem para eleições legislativas. Com o efeito catapulta das sondagens e da percepção de crescimento, poderá ainda captar voto útil de eleitores do PSD ou da IL que se reveem na sua liderança.
Basicamente...
Se Ventura conseguir cerca de 20% dos votos numa primeira volta, isso significa, que praticamente 20% dos eleitores já estão fidelizados para futuras eleições legislativas.
Se, numa segunda volta, atingir valores próximos dos 26%, ficará demonstrado que, no curto prazo, Ventura tem a capacidade real para alcançar esses números também num contexto legislativo, caso haja eleições em breve, numa possível queda de governo.
Importa sublinhar que o CHEGA obteve 22,76% dos votos em 2025. Ainda assim, e segundo o Radar das Sondagens disponibilizado pelo Observador, Ventura situa-se atualmente em torno dos 20%. Ou seja, isto significa à priori, que cerca de 90% do seu eleitorado permanece fiel, mesmo fora de um contexto legislativo.
E é exatamente isto que Ventura quer perceber: quem está verdadeiramente do seu lado.
🎯Quarto Objetivo - Em curso
Conclusão
A candidatura presidencial de André Ventura é, acima de tudo, uma estratégia para consolidar o seu eleitorado e medir a fidelidade dos apoiantes do CHEGA. Entre confrontos políticos, presença mediática e objetivos eleitorais interligados, Ventura transforma esta eleição numa oportunidade de testar o terreno para futuras legislativas e reforçar a sua influência pessoal.
Tal como os grandes partidos do passado, Ventura aposta no efeito de fidelização: quem vota nele agora, provavelmente continuará a votar no CHEGA.
Em suma, tudo se resume a isto: Ventura quer saber quem está verdadeiramente do seu lado. Para isso, precisa de todos os que respiram e vivem o CHEGA — não só para disputar a presidência e derrotar os adversários, mas também para medir a sua margem eleitoral e preparar o terreno para futuras legislativas.
Mais uma vez, deixo claro: este artigo não tem como objetivo convencer ninguém a votar em André Ventura, João Cotrim de Figueiredo ou em qualquer outro candidato. Trata-se exclusivamente de uma análise factual sobre a real intenção de André Ventura.
