A Democracia imperfeita e a Tirania dos rótulos
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| A democracia imperfeita e a tirania dos rótulos - Miguel Bento Alves |
A democracia atualmente é vista e usada no discurso político
dominante do Ocidente, não apenas como um regime político entre muitos outros,
mas também como um dogma civilizacional. É apresentada como um fim em si mesma,
como a expressão máxima e incontestável do desenvolvimento humano,
frequentemente à prova de bala no que toca a críticas estruturais e a revisões
conceptuais profundas. Esta beatificação da democracia sobretudo, na sua versão
liberal - representativa- não a fortalece; pelo contrário, fragiliza-a. Não
existe democracia que seja perfeita, reconheço e também acredito que tal
perfeição é compatível com a natureza humana, com o conflito ligado à política
ou com a pluralidade das nossas sociedades.
Ao insistirmos numa democracia ideal, moralmente incontestável, provocamos um efeito perverso e nocivo: qualquer crítica passa a ser vista como ameaça, qualquer divergência como desvio ético. É neste contexto que o uso sistemático de rótulos ideológicos se torna uma prática recorrente. Em vez de se responder a ideias com argumentos, responde-se com etiquetas redutoras; em vez de se compreender o outro, procura-se deitar abaixo. O debate político é assim substituído por um mecanismo de exclusão simbólica.
Vivemos um tempo de polarização acentuada, amplificada pela lógica mediática e pelas redes sociais. A exposição pública de ideias tornou-se um exercício arriscado, tanto à esquerda como à direita. Rótulos como “fascista”, “comunista”, “socialista” ou “reacionário” são usados de forma leviana, descontextualizada e redutora. Conceitos historicamente densos são esvaziados do seu significado e transformados em armas retóricas. O objetivo raramente é esclarecer; é silenciar. Estes rótulos “arrumam” pensamentos complexos em categorias simplistas, dispensando o esforço intelectual do debate.
Este fenómeno contribui para a emergência de uma elite não ideológica, mas mediática e moralizante, que se apresenta como árbitro legítimo do aceitável no espaço público. Trata-se de uma elite que opera pela superioridade moral autoproclamada, visível tanto em setores da esquerda identitária como em segmentos da direita igualmente dogmática. A legitimidade política deixa de assentar na coerência argumentativa e passa a depender da conformidade com sensibilidades dominantes.
Se a democracia pretende manter-se viva, o debate político
deve assentar em princípios fundamentais. Em primeiro lugar, a política existe
para permitir a convivência entre diferentes. Quando o espaço público se
transforma numa arena de conflito permanente, regressa-se a uma lógica de luta
constante próxima do Estado de Natureza descrito por Thomas Hobbes, marcado
pela hostilidade contínua e pela busca de superioridade. Uma democracia que
normaliza a desumanização do adversário mina a sua própria função
civilizacional.
Em segundo lugar, os rótulos não legitimam nem invalidam ideias. O pensamento político deve ser avaliado pelos seus argumentos, pressupostos e consequências, não por etiquetas morais. A banalização dos rótulos gera medo de pensar e de falar, empobrece o debate e distorce conceitos.
Uma democracia madura exige coragem, responsabilidade
discursiva e sujeição ao escrutínio e rejeição do puro ódio como substituto da
razão.
Por fim, é precisamente a democracia que nos garante liberdades fundamentais que tanto gostamos de usufruir como a liberdade de expressão, de associação, de religião e o pluralismo de ideias. Reduzir o debate democrático a rótulos por preguiça intelectual ou incapacidade de lidar com a divergência equivale a um “suicídio da comunidade política”. É abdicar de um ideal imperfeito, mas precioso, apenas porque discordar se tornou desconfortável.
Dizer as coisas como são implica reconhecer que a democracia não se sustenta apenas em eleições ou normas formais, mas na qualidade do debate público. Se o rótulo continuar a substituir o argumento, não estaremos a defender a democracia — estaremos, silenciosamente, a esvaziá-la até que reste apenas o nome, desprovido do seu verdadeiro conteúdo.
