A liberdade que perdeu o rosto humano no Ocidente
No Ocidente, fala-se obsessivamente de direitos, de escolhas e de autonomia. Fala-se cada vez menos da pessoa concreta que fica para trás quando a liberdade é reduzida a um mecanismo impessoal. O liberalismo prometeu emancipação; em demasiados casos, entregou solidão, fragilidade e indiferença organizada.
O liberalismo venceu. Venceu politicamente, venceu juridicamente e venceu culturalmente. A linguagem dos direitos individuais, da autonomia e da responsabilidade pessoal, da liberdade de escolha tornou-se recorrente nas democracias ocidentais, ao ponto de parecer quase impossível pensar a política fora desse quadro conceptual. No entanto, esta vitória trouxe consigo um paradoxo profundo: nunca os indivíduos foram tão livres em termos formais e nunca as sociedades pareceram tão frágeis, fragmentadas e moralmente esgotadas. A solidão estrutural, a quebra demográfica, a erosão da família, a mercadorização do trabalho e a concentração extrema de riqueza não são acidentes nem disfunções secundárias. São sintomas de uma deriva específica do pensamento liberal, aquilo a que denomino “liberalismo desumanizado”.
É essencial esclarecer, desde o início, o que está e o que não está em causa. Não rejeito o liberalismo político. Pelo contrário: considero-o uma conquista importante civilizacional e inegociável. A defesa das liberdades civis, do Estado de Direito, do pluralismo e da limitação do poder político constitui um património que deve ser protegido com firmeza.
Do mesmo modo, não rejeito a economia de mercado enquanto mecanismo de criação de riqueza, inovação e mobilidade social. É um facto que o mercado revelou-se historicamente eficaz e seria desonesto intelectualmente negá-lo. O problema não reside no mercado enquanto tal, mas na sua radicalização antropológica no momento em que deixa de ser um projeto ou quadro político e económico e passa a funcionar como uma visão total do ser humano.
O “liberalismo desumanizado” parte de uma premissa simples, mas profundamente redutora: o indivíduo é soberano sobre si mesmo e as relações sociais devem resultar exclusivamente de escolhas livres entre agentes racionais. Esta visão ignora um dado elementar da condição humana: ninguém se constitui sozinho. Nascemos dependentes, crescemos em relação, vivemos de vínculos e só nos realizamos plenamente no interior de estruturas de pertença duradouras. Uma sociedade que se organiza como se este facto fosse irrelevante acaba por produzir indivíduos juridicamente livres, mas existencialmente desamparados; formalmente autónomos, mas socialmente isolados.
É precisamente aqui que a minha posição se afasta tanto do liberalismo radical como das suas caricaturas adversárias. Não defendo o estatismo, não defendo o igualitarismo forçado, não defendo a supressão da iniciativa privada. Mas também não aceito um modelo de sociedade que trate a pessoa humana como uma variável económica, um número estatístico ou um recurso descartável. A liberdade, quando desligada da pessoa concreta — com vínculos, fragilidades e responsabilidades — deixa de ser libertadora e transforma-se num exercício abstrato, incapaz de sustentar uma vida comum minimamente saudável.
É neste contexto que o personalismo cristão se afirma como uma alternativa séria ao liberalismo desumanizado. Não como nostalgia religiosa nem como moralismo abstrato, mas como uma antropologia realista. Ao contrário do individualismo liberal radical, o personalismo distingue claramente entre indivíduo e pessoa. O indivíduo é uma unidade jurídica ou económica; a pessoa é um ser dotado de dignidade intrínseca, relacional por natureza e responsável perante os outros. Esta distinção não é um detalhe académico: tem consequências diretas na forma como concebemos a liberdade, a economia e a política.
Para o personalismo, a liberdade não se reduz à ausência de constrangimentos nem à simples capacidade de escolher. É a possibilidade de orientar a própria vida para o bem. Uma liberdade desligada da responsabilidade não emancipa; fragmenta. Uma sociedade que absolutiza a autonomia individual, mas relativiza os vínculos, acaba por corroer as condições que tornam a liberdade sustentável. O resultado está à vista: indivíduos livres para escolher quase tudo, mas incapazes de sustentar compromissos duradouros, famílias estáveis ou projetos comuns.
Esta falha torna-se particularmente evidente no plano económico. O mercado é um instrumento poderoso, mas um critério moral insuficiente. Quando o liberalismo se desumaniza, o valor da pessoa começa a medir-se pela sua produtividade, pelo seu rendimento ou pela sua utilidade económica. O trabalho deixa de ser expressão de dignidade e transforma-se num custo a minimizar. A concentração extrema de riqueza passa a ser tratada como um efeito colateral aceitável, quando na realidade revela uma falha profunda na função social da economia. Não se trata de negar o mérito, o esforço ou o sucesso económico, mas de afirmar que há limites morais para a acumulação numa sociedade que se quer justa e coesa.
Esta posição não é nova nem radical. Já no final do século XIX, a encíclica Rerum Novarum afirmava com clareza algo que continua desconfortável para muitos liberais contemporâneos: a propriedade privada e a iniciativa económica são legítimas, mas o trabalhador nunca pode ser reduzido a mercadoria. A economia existe para servir a pessoa, não para a submeter. O facto de esta advertência continuar atual diz menos sobre a Igreja e mais sobre a incapacidade do liberalismo dominante de resolver as suas próprias contradições.
O liberalismo desumanizado falha também ao desvalorizar estruturas fundamentais como a família, a comunidade e as instituições intermédias. Tratadas como escolhas privadas contingentes, estas realidades são, na verdade, condições antropológicas da liberdade. É nelas que se aprende a linguagem do compromisso, da responsabilidade e da pertença. Uma sociedade que fragiliza estas estruturas em nome da autonomia individual acaba por transferir para o Estado ou para o mercado funções que só podem ser desempenhadas por vínculos pessoais. O resultado é previsível: mais dependência, mais solidão e menos liberdade real.
O mesmo se aplica à política. O liberalismo desumanizado tende a esvaziá-la da sua dimensão moral, reduzindo-a a procedimentos neutros ou a marketing eleitoral. Mas toda a decisão política envolve escolhas éticas e tem consequências humanas concretas. A política não é técnica neutra nem espetáculo mediático: é responsabilidade. Responsabilidade perante pessoas reais, e não perante abstrações estatísticas ou indicadores económicos.
O debate decisivo do nosso tempo não é entre liberalismo e antiliberalismo, nem entre mercado e Estado. É entre duas conceções de ser humano. Uma que vê o indivíduo como soberano isolado e outra que reconhece a pessoa como ser livre, relacional e responsável. Se o liberalismo quiser sobreviver como projeto civilizacional, terá de abandonar a sua versão desumanizada e reaprender a ver a pessoa para lá do indivíduo.
Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela onde tudo pode ser escolhido, comprado ou descartado, mas aquela que reconhece limites morais à liberdade precisamente para que ela permaneça humana. É por isso que defendo o personalismo cristão não como negação da modernidade, mas como correção necessária de uma liberdade que perdeu o rosto humano.
