A Crise da Esquerda e da Direita: Porque a Dicotomia Política Perdeu Significado

Esquerda e Direita: Dicotomia em crise semântica

A crise da esquerda e da direita - Opinião do Cronista Miguel Bento Alves


No atual debate político seja ele académico, nas redes sociais, nos meios de comunicação
tradicionais ou até no quotidiano, existe uma tendência quase instintiva para organizar o
pensamento em torno de uma dicotomia fundamental e que quem estuda política ou se interessa
pelo tópico, já se deparou várias vezes. Esta divisão do espetro político não é arbitrária ou artificial;
corresponde à mais pura necessidade político-retórica humana profunda de ordenar a divergência
e tornar inteligível um campo de estudo que por natureza, é complexo, conflituoso e
constantemente mutável. A política, enquanto espaço de disputa de poder, valores e recursos,
sempre exigiu mapas conceputais que permitissem aos indivíduos situarem-se e compreenderem
os outros.

Todavia, embora esta dicotomia tenha sido historicamente útil, é hoje cada vez mais evidente que
os conceitos de “esquerda” e “direita” atravessam uma crise semântica profunda. Continuam a ser
usados com enorme frequência, mas com um conteúdo que ficou desde a sua origem, mas dada a
mutação a que assistimos na política, o significado vai desaparecendo pois, o conteúdo pode
também por vezes, ser contraditórios ou mesmo... vazio.

Esta dupla dimensão da política nasceu num contexto histórico muito concreto: a Revolução
Francesa. Na Assembleia Nacional, a disposição física dos deputados refletia clivagens políticas
reais e facilmente identificáveis. À esquerda sentavam-se aqueles que defendiam a rutura com a
ordem monárquica, a secularização do poder e a soberania popular; à direita, os que procuravam
preservar a tradição, a hierarquia social e a legitimidade histórica da monarquia. Neste momento
fundacional, a dicotomia não era apenas simbólica: correspondia a projetos políticos claros,
antagonismos sociais definidos e visões opostas sobre a natureza do poder.

Na modernidade e durante largos períodos, esta divisão durou e manteve uma relativa coerência.
Ao longo do século XIX e grande parte do século XX, “esquerda” e “direita” passaram a incorporar
conteúdos económicos, sociais e ideológicos mais densos. A esquerda associou-se, de forma geral,
a ideias de igualdade social, intervenção do Estado, redistribuição económica e emancipação das
classes trabalhadoras; a direita, por sua vez, à defesa da propriedade privada, da ordem social, da
tradição, da autoridade e, em muitos casos, do mercado como mecanismo central de organização
económica.

Na Idade Contemporânea, a política voltou de novo a alterar profundamente este quadro. A
globalização, a financeirização da economia, o declínio das grandes ideologias estruturadas, a crise
dos partidos de massas e a emergência de novas clivagens culturais e identitárias fragmentaram o
espaço político de tal forma que a dicotomia clássica deixou de conseguir captar a realidade. Hoje,
encontramos partidos classificados como de direita a defender políticas económicas fortemente
intervencionistas, e partidos identificados como de esquerda a aceitar mais lógicas de mercado e
austeridade. Do mesmo modo, posições culturalmente conservadoras coexistem com programas
económicos estatistas, enquanto discursos progressistas convivem com práticas políticas iliberais.

Na Europa Central e de Leste, encontramos partidos inequivocamente classificados como de direita
a adotar políticas económicas fortemente intervencionistas. O caso do Fidesz, na Hungria, é
paradigmático. Sob a liderança de Viktor Orbán, o partido promoveu a nacionalização parcial de
setores estratégicos, como a energia e a banca, impôs tetos administrativos aos preços de bens
essenciais (combustíveis, eletricidade, alimentos) e utilizou o Estado como instrumento ativo de
redistribuição seletiva. Estas medidas afastam-se claramente do liberalismo económico
tradicionalmente associado à direita conservadora.

Situação semelhante verifica-se na Polónia com o partido Lei e Justiça (PiS). Embora socialmente
conservador e nacionalista, o PiS implementou políticas económicas marcadamente estatistas:
criou subsídios universais à natalidade (programa Family 500+), aumentou significativamente a
despesa social e reforçou o papel do Estado como garante de segurança económica. Na prática,
trata-se de uma direita cultural combinada com um intervencionismo económico típico de modelos
sociais tradicionalmente associados à esquerda.

Em sentido inverso, vários partidos historicamente identificados com a esquerda aceitaram — ou
mesmo promoveram — lógicas de mercado, disciplina orçamental e austeridade. Em Portugal, o
Partido Socialista, apesar da sua matriz social-democrata, governou em vários momentos com forte
compromisso com as regras da União Europeia: contenção da despesa pública, prioridade ao
equilíbrio orçamental e respeito pelos constrangimentos impostos pelo euro, mesmo quando isso
implicou limitações à expansão do Estado social.

Na Grécia, o caso do PASOK é ainda mais ilustrativo. Partido fundador da esquerda socialista grega,
foi responsável pela implementação de programas de austeridade severa durante a crise da dívida
soberana: cortes salariais, privatizações de empresas públicas e reformas estruturais exigidas por
credores internacionais. Estas decisões representaram uma rutura profunda com o discurso
clássico de redistribuição e proteção social que historicamente definia o partido.

Também no Reino Unido, a transformação da esquerda tornou-se evidente com o projeto do New
Labour, liderado por Tony Blair. Este abandonou pilares tradicionais do trabalhismo, aceitou o
mercado como motor central da economia, promoveu parcerias público-privadas e manteve
privatizações iniciadas por governos conservadores. A esquerda britânica deixou, assim, de se
definir pela oposição estrutural ao capitalismo.

É neste contexto que se pode falar, com propriedade, num vazio semântico atual. “Esquerda” e
“direita” tornaram-se categorias elásticas ou coordenadas geográficas ideologicamente,
frequentemente contraditórias, usadas mais como instrumentos retóricos do que como conceitos
analíticos rigorosos. Em muitos debates, dizer que alguém é “de esquerda” ou “de direita” pouco
esclarece sobre o que essa pessoa realmente defende em matéria económica, social, institucional
ou moral. As palavras funcionam como atalhos discursivos, não como explicações.

Apesar disso, seria precipitado e intelectualmente desonesto defender o abandono total destes
conceitos. Mesmo enfraquecidos, os próprios mantêm uma utilidade residual mas importante. Em
primeiro lugar, enquanto referências históricas. A história do pensamento político moderno não

pode ser compreendida sem esta clivagem fundamental. Em segundo lugar, enquanto instrumentos
de simplificação inicial. A política é um domínio intrinsecamente complexo, e o ser humano
necessita de categorias para lidar com essa complexidade.

Esta necessidade não é acidental. Desde a Antiguidade que se reconhece o carácter político do ser
humano. Como afirmava Aristóteles, o homem é um “animal político”, isto é, um ser que vive em
comunidade e que procura compreender, organizar e disputar o poder. Simplificar o complexo é uma
estratégia legítima. O problema surge quando esta simplificação se transforma em empobrecimento
conceptual e substitui a análise pelo rótulo precipitado.

Talvez por isso, no mundo contemporâneo, outras dicotomias tenham ganho maior capacidade
explicativa do que a clássica oposição esquerda/direita. No plano económico, a clivagem entre
liberalismo e socialismo — entendida como maior ou menor grau de intervenção do Estado na
economia — continua a ser particularmente relevante. No plano social e cultural, oposições como
liberal/conservador ou conservador/progressista revelam-se, muitas vezes, mais precisas para
compreender debates sobre costumes, identidade, religião, família ou moral pública.

Outros eixos emergem com força crescente: globalismo versus soberanismo, tecnocracia versus
populismo, pluralismo versus monismo (no que toca às ideias e à convivência entre as mesmas),
centralização versus descentralização. Estas dicotomias não substituem totalmente a esquerda e a
direita, mas mostram que o nosso atual espaço político tem várias dimensões de análise. Insistir em
reduzi-lo a uma linha única é uma forma de distorção analítica.

A crise semântica da “esquerda” e da “direita” não significa que a política tenha perdido sentido;
significa, antes, que os instrumentos conceptuais herdados da história política já não são
suficientes para descrever uma realidade política profundamente transformada. O perigo reside em
continuar a usar estes conceitos de forma acrítica, como se ainda possuíssem a clareza e a
coerência que tiveram noutros contextos históricos.

Dizer as coisas como são implica reconhecer que grande parte do debate político atual está ainda
prisioneiro de categorias gastas, usadas mais para simplificar o adversário do que para
compreender a realidade. Ainda assim, enquanto referências históricas, mapas rudimentares do
campo político ou simplesmente, o assumir de determinada identidade ideológica individual,
“esquerda” e “direita” continuam a ter um lugar — desde que acompanhadas de rigor,
contextualização e consciência dos seus limites.

O futuro da análise política exigirá menos fidelidade dogmática a rótulos tradicionais e mais
capacidade de pensar a política como um espaço plural, atravessado por múltiplos eixos de conflito.
A política atual já não cabe numa dicotomia binária simples. Persistir em fingir que cabe é não
apenas um erro teórico, mas uma forma de degradar o debate público e de obscurecer as
verdadeiras tensões que moldam o poder no nosso tempo.

Politicamente Incensurável

Olá! Sou o Politicamente Incensurável, produtor de conteúdos digitais focado em política e economia. Com compromisso com a análise e o compartilhamento de factos, procuro esclarecer e ensinar temas importantes para promover um entendimento crítico e aprofundado.

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