Esquerda e Direita: Dicotomia em crise semântica
No atual debate político seja ele académico, nas redes sociais, nos meios de comunicação
tradicionais ou até no quotidiano, existe uma tendência quase instintiva para organizar o
pensamento em torno de uma dicotomia fundamental e que quem estuda política ou se interessa
pelo tópico, já se deparou várias vezes. Esta divisão do espetro político não é arbitrária ou artificial;
corresponde à mais pura necessidade político-retórica humana profunda de ordenar a divergência
e tornar inteligível um campo de estudo que por natureza, é complexo, conflituoso e
constantemente mutável. A política, enquanto espaço de disputa de poder, valores e recursos,
sempre exigiu mapas conceputais que permitissem aos indivíduos situarem-se e compreenderem
os outros.
Todavia, embora esta dicotomia tenha sido historicamente útil, é hoje cada vez mais evidente que
os conceitos de “esquerda” e “direita” atravessam uma crise semântica profunda. Continuam a ser
usados com enorme frequência, mas com um conteúdo que ficou desde a sua origem, mas dada a
mutação a que assistimos na política, o significado vai desaparecendo pois, o conteúdo pode
também por vezes, ser contraditórios ou mesmo... vazio.
Esta dupla dimensão da política nasceu num contexto histórico muito concreto: a Revolução
Francesa. Na Assembleia Nacional, a disposição física dos deputados refletia clivagens políticas
reais e facilmente identificáveis. À esquerda sentavam-se aqueles que defendiam a rutura com a
ordem monárquica, a secularização do poder e a soberania popular; à direita, os que procuravam
preservar a tradição, a hierarquia social e a legitimidade histórica da monarquia. Neste momento
fundacional, a dicotomia não era apenas simbólica: correspondia a projetos políticos claros,
antagonismos sociais definidos e visões opostas sobre a natureza do poder.
Na modernidade e durante largos períodos, esta divisão durou e manteve uma relativa coerência.
Ao longo do século XIX e grande parte do século XX, “esquerda” e “direita” passaram a incorporar
conteúdos económicos, sociais e ideológicos mais densos. A esquerda associou-se, de forma geral,
a ideias de igualdade social, intervenção do Estado, redistribuição económica e emancipação das
classes trabalhadoras; a direita, por sua vez, à defesa da propriedade privada, da ordem social, da
tradição, da autoridade e, em muitos casos, do mercado como mecanismo central de organização
económica.
Na Idade Contemporânea, a política voltou de novo a alterar profundamente este quadro. A
globalização, a financeirização da economia, o declínio das grandes ideologias estruturadas, a crise
dos partidos de massas e a emergência de novas clivagens culturais e identitárias fragmentaram o
espaço político de tal forma que a dicotomia clássica deixou de conseguir captar a realidade. Hoje,
encontramos partidos classificados como de direita a defender políticas económicas fortemente
intervencionistas, e partidos identificados como de esquerda a aceitar mais lógicas de mercado e
austeridade. Do mesmo modo, posições culturalmente conservadoras coexistem com programas
económicos estatistas, enquanto discursos progressistas convivem com práticas políticas iliberais.
Na Europa Central e de Leste, encontramos partidos inequivocamente classificados como de direita
a adotar políticas económicas fortemente intervencionistas. O caso do Fidesz, na Hungria, é
paradigmático. Sob a liderança de Viktor Orbán, o partido promoveu a nacionalização parcial de
setores estratégicos, como a energia e a banca, impôs tetos administrativos aos preços de bens
essenciais (combustíveis, eletricidade, alimentos) e utilizou o Estado como instrumento ativo de
redistribuição seletiva. Estas medidas afastam-se claramente do liberalismo económico
tradicionalmente associado à direita conservadora.
Situação semelhante verifica-se na Polónia com o partido Lei e Justiça (PiS). Embora socialmente
conservador e nacionalista, o PiS implementou políticas económicas marcadamente estatistas:
criou subsídios universais à natalidade (programa Family 500+), aumentou significativamente a
despesa social e reforçou o papel do Estado como garante de segurança económica. Na prática,
trata-se de uma direita cultural combinada com um intervencionismo económico típico de modelos
sociais tradicionalmente associados à esquerda.
Em sentido inverso, vários partidos historicamente identificados com a esquerda aceitaram — ou
mesmo promoveram — lógicas de mercado, disciplina orçamental e austeridade. Em Portugal, o
Partido Socialista, apesar da sua matriz social-democrata, governou em vários momentos com forte
compromisso com as regras da União Europeia: contenção da despesa pública, prioridade ao
equilíbrio orçamental e respeito pelos constrangimentos impostos pelo euro, mesmo quando isso
implicou limitações à expansão do Estado social.
Na Grécia, o caso do PASOK é ainda mais ilustrativo. Partido fundador da esquerda socialista grega,
foi responsável pela implementação de programas de austeridade severa durante a crise da dívida
soberana: cortes salariais, privatizações de empresas públicas e reformas estruturais exigidas por
credores internacionais. Estas decisões representaram uma rutura profunda com o discurso
clássico de redistribuição e proteção social que historicamente definia o partido.
Também no Reino Unido, a transformação da esquerda tornou-se evidente com o projeto do New
Labour, liderado por Tony Blair. Este abandonou pilares tradicionais do trabalhismo, aceitou o
mercado como motor central da economia, promoveu parcerias público-privadas e manteve
privatizações iniciadas por governos conservadores. A esquerda britânica deixou, assim, de se
definir pela oposição estrutural ao capitalismo.
É neste contexto que se pode falar, com propriedade, num vazio semântico atual. “Esquerda” e
“direita” tornaram-se categorias elásticas ou coordenadas geográficas ideologicamente,
frequentemente contraditórias, usadas mais como instrumentos retóricos do que como conceitos
analíticos rigorosos. Em muitos debates, dizer que alguém é “de esquerda” ou “de direita” pouco
esclarece sobre o que essa pessoa realmente defende em matéria económica, social, institucional
ou moral. As palavras funcionam como atalhos discursivos, não como explicações.
Apesar disso, seria precipitado e intelectualmente desonesto defender o abandono total destes
conceitos. Mesmo enfraquecidos, os próprios mantêm uma utilidade residual mas importante. Em
primeiro lugar, enquanto referências históricas. A história do pensamento político moderno não
pode ser compreendida sem esta clivagem fundamental. Em segundo lugar, enquanto instrumentos
de simplificação inicial. A política é um domínio intrinsecamente complexo, e o ser humano
necessita de categorias para lidar com essa complexidade.
Esta necessidade não é acidental. Desde a Antiguidade que se reconhece o carácter político do ser
humano. Como afirmava Aristóteles, o homem é um “animal político”, isto é, um ser que vive em
comunidade e que procura compreender, organizar e disputar o poder. Simplificar o complexo é uma
estratégia legítima. O problema surge quando esta simplificação se transforma em empobrecimento
conceptual e substitui a análise pelo rótulo precipitado.
Talvez por isso, no mundo contemporâneo, outras dicotomias tenham ganho maior capacidade
explicativa do que a clássica oposição esquerda/direita. No plano económico, a clivagem entre
liberalismo e socialismo — entendida como maior ou menor grau de intervenção do Estado na
economia — continua a ser particularmente relevante. No plano social e cultural, oposições como
liberal/conservador ou conservador/progressista revelam-se, muitas vezes, mais precisas para
compreender debates sobre costumes, identidade, religião, família ou moral pública.
Outros eixos emergem com força crescente: globalismo versus soberanismo, tecnocracia versus
populismo, pluralismo versus monismo (no que toca às ideias e à convivência entre as mesmas),
centralização versus descentralização. Estas dicotomias não substituem totalmente a esquerda e a
direita, mas mostram que o nosso atual espaço político tem várias dimensões de análise. Insistir em
reduzi-lo a uma linha única é uma forma de distorção analítica.
A crise semântica da “esquerda” e da “direita” não significa que a política tenha perdido sentido;
significa, antes, que os instrumentos conceptuais herdados da história política já não são
suficientes para descrever uma realidade política profundamente transformada. O perigo reside em
continuar a usar estes conceitos de forma acrítica, como se ainda possuíssem a clareza e a
coerência que tiveram noutros contextos históricos.
Dizer as coisas como são implica reconhecer que grande parte do debate político atual está ainda
prisioneiro de categorias gastas, usadas mais para simplificar o adversário do que para
compreender a realidade. Ainda assim, enquanto referências históricas, mapas rudimentares do
campo político ou simplesmente, o assumir de determinada identidade ideológica individual,
“esquerda” e “direita” continuam a ter um lugar — desde que acompanhadas de rigor,
contextualização e consciência dos seus limites.
O futuro da análise política exigirá menos fidelidade dogmática a rótulos tradicionais e mais
capacidade de pensar a política como um espaço plural, atravessado por múltiplos eixos de conflito.
A política atual já não cabe numa dicotomia binária simples. Persistir em fingir que cabe é não
apenas um erro teórico, mas uma forma de degradar o debate público e de obscurecer as
verdadeiras tensões que moldam o poder no nosso tempo.
