Observador ignora contexto do meme e cria leitura incompleta de imagem de Trump com pinguim

Nos últimos dias, uma imagem gerada por IA publicada pela conta oficial da Casa Branca (@WhiteHouse) no X gerou ondas de reações: Donald Trump caminha lado a lado com um pinguim que carrega a bandeira dos Estados Unidos, em direção a montanhas nevadas com uma bandeira da Gronelândia ao fundo. A legenda? Simples e enigmática: “Embrace the penguin” (Abraça o pinguim).


O post, de 23 de janeiro de 2026, acumula milhões de visualizações e dezenas de milhares de interações. Mas o que muitos portugueses viram primeiro foi a notícia do Observador: “Casa Branca publica montagem de Donald Trump a caminhar ao lado de pinguim na Gronelândia (onde estes animais não existem)”.
O artigo, assinado por Martim Andrade, opta por centrar-se no absurdo biológico da imagem — sublinhando que os pinguins são exclusivos do hemisfério sul e não habitam o Ártico — bem como nas reações de utilizadores que apontaram esse “erro”.
Fica, contudo, por explicar o contexto que esteve na origem da publicação, nomeadamente a apropriação de um dos memes mais virais do momento, o “Nihilist Penguin” (Pinguim Niilista), que ajuda a compreender a escolha do pinguim.
Ao não explicar este aspeto fulcral, o Observador acaba por desinformar os seus leitores através de uma descontextualização que condiciona a leitura do episódio.A origem do meme: um pinguim “louco” de Werner HerzogO clipe que deu vida ao meme vem do documentário Encounters at the End of the World (2007), dirigido pelo cineasta alemão Werner Herzog. Filmado na Antártida, o filme acompanha cientistas e explora o absurdo da existência humana em ambientes extremos.
Numa cena memorável, Herzog pergunta a um especialista em pinguins se estes animais podem “enlouquecer”. A resposta leva à filmagem real de um pinguim-adélia que abandona a colónia, ignora o caminho para o mar (e a sobrevivência) e marcha sozinho em direção ao interior gelado — uma caminhada de dezenas de quilómetros rumo a montanhas distantes, que na prática significa morte certa por fome, frio e exaustão.
Herzog narra a cena com tom filosófico e sombrio: o pinguim é descrito como “deranged” (desorientado ou louco), um ser que escolhe o caminho errado contra todos os instintos.   Em janeiro de 2026, o trecho explodiu em edições no TikTok, Instagram e X. As legendas variam: “Quando percebes que a vida não faz sentido, mas continuas a andar”, “Sê esse pinguim: abandona o rebanho e segue o teu destino”, “Burnout existencial” ou até visões mais heróicas de “coragem solitária contra o sistema”.
O meme tornou-se símbolo multifacetado: niilismo, rebeldia, depressão, transcendência ou simples “ir contra tudo”.Porque a Casa Branca postou isso?O post não foi um erro geográfico aleatório. Encaixa perfeitamente na narrativa de Trump sobre a Gronelândia — uma obsessão desde 2019, revivida em 2026 com negociações para um “framework” de acordo (acesso a minerais raros, reforço militar no Ártico contra China e Rússia, bases como Thule).
Após uma montagem anterior com Trump, JD Vance e Marco Rubio “oficializando” a Gronelândia como território americano, o “Embrace the penguin” liga diretamente ao meme viral: Trump (ou a sua equipa) apropriou o pinguim solitário como metáfora de determinação inabalável. “Abraça o pinguim” significa abraçar o caminho difícil, solitário e “contra todos” — mesmo que signifique desafiar aliados como a Dinamarca ou ignorar críticas internacionais.
Ao contrário do observador, outros meios de comunicação social Media como a NDTV ou o The Hill,  identificaram explicitamente a ligação do Post criado pela Casa Branca ao “Nihilist Penguin” e ao documentário de Herzog.O artigo do Observador: factual, mas descontextualizadoO texto do Observador é correto no que afirma:
  • a imagem é uma montagem por IA,
  • pinguins não existem na Gronelândia,
  • predadores árticos tornariam impossível a sua sobrevivência lá.

No entanto, não menciona em momento algum que se trata de uma tendência viral, nem a origem do meme no filme de Herzog, nem o simbolismo adotado pela Casa Branca. O tom irónico do artigo — “ou Donald Trump não sabe… ou pensa levar estes animais” — e o foco exclusivo no erro geográfico enfatizam o absurdo da situação, mas deixam de fora o contexto que explicaria a intenção por trás da escolha do pinguim.

Trata-se, portanto, de uma cobertura seletiva, caracterizada por uma omissão que limita a compreensão completa do leitor.



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