A Direita perante o espelho
Disclaimer inicial: Este texto é escrito enquanto analista político e estudante, não enquanto militante partidário nem defensor de qualquer candidatura presidencial. As posições aqui expressas resultam da mais pura análise política, leitura dos resultados eleitorais e também, reflexão ideológica. Não constituem apoio a quem quer que seja para o dia 8 de Fevereiro.
As eleições do passado dia 18 de Janeiro de 2026 não foram uma mera escolha entre candidatos. Foram um teste de stress ao sistema político português e sobretudo, um espelho colocado à frente da Direita. Um espelho incómodo, mas revelador. Revelador do cansaço do regime, da fragmentação do eleitorado, do esgotamento estratégico do centro-direita tradicional e da emergência de uma liderança inédita no espaço político à Direita do PS. Quem olha para estes resultados apenas como mais um episódio com várias mutações eleitorais falha o essencial: estas Presidenciais expuseram uma crise de identidade, de liderança e de projeto que a Direita portuguesa já não pode continuar a adiar.
A insistência recorrente de que as eleições presidenciais elegem pessoas e não partidos, é, do ponto de vista pragmático, correta. Do ponto de vista político-real, é insuficiente e, em certa medida ingénua. Em Portugal, os partidos tornaram-se intermediários quase inevitáveis da escolha democrática, mesmo quando o quadro institucional lhes atribui um papel secundário. Os apoios partidários, são legítimos e funcionam como atalhos cognitivos para um eleitorado cansado, pressionado e cada vez mais distante e desconfiado das instituições políticas. O resultado é previsível: muitos eleitores não votam apenas no candidato, mas na imagem real ou percecionada do partido que o sustenta. Esta dinâmica não fortalece a democracia presidencial; fragiliza-a, ao diluir a responsabilidade individual e ao transformar eleições personalizadas em extensões informais das lutas partidárias.
É neste contexto que falo, sem rodeios, de uma partidocracia funcional. Não como slogan facilista, mas como constatação empírica. A nossa democracia liberal evoluiu par aum modelo em que os partidos deixam de ser meros veículos de representação, mas atores permanentes do quotidiano político, condicionando agendas, narrativas e escolhas mesmo quando não o devem fazer. Criticar o estado a que chegámos não é atacar a democracia representativa, é simplesmente reconhecer que a mesma se cristalizou num modelo bafiento, partidocrático e que causa desafeição e cansaço político e cívico.
Este cansaço foi claramente expresso nestas Presidenciais. O eleitorado português demonstrou uma impaciência crescente face ao sistema político tal como ele funciona. Os resultados revelam uma procura clara de rutura, de confronto político e de afirmação identitária. Mas revelam também algo frequentemente ignorado: essa vontade de rutura convive com a valorização da institucionalidade, do perfil moral e do respeito pelas regras do jogo democrático. O eleitorado não é incoerente; é ambivalente. Quer mudança, mas não quer o colapso das instituições. Quer confronto, mas não quer irresponsabilidade.
É precisamente nesta tensão que a Direita se encontra hoje mais exposta do que nunca. Durante décadas, o espaço à Direita do Partido Socialista foi ocupado por uma força política que se apresentou como partido de governo, mas que raramente se assumiu como verdadeiro polo ideológico alternativo. A gestão prudente, a moderação estratégica e a recusa sistemática de conflitos ideológicos claros produziram um vazio político. Esse vazio não desaparece por apelos à responsabilidade; é ocupado. E foi ocupado.
Reconhecer que André Ventura é hoje a figura política de maior expressão no espaço da Direita não é um ato de adesão nem de provocação. É uma constatação factual. Em eleições altamente personalizadas como as Presidenciais, foi o candidato da Direita mais votado, com capacidade de mobilização transversal, particularmente entre os mais jovens. Ignorar este facto é recusar a realidade. Combatê-lo com moralismos ou silêncios estratégicos é politicamente ineficaz.
Isso não significa, contudo, que represente plenamente a identidade ideológica da Direita portuguesa. Representa sobretudo uma Direita que se sente injustiçada, cansada e excluída do consenso dominante. Representa a rutura emocional e simbólica com o sistema. O que ainda não representa — e este ponto é crucial — é um projeto político plenamente estruturado, coerente e orientado para o longo prazo. A indignação mobiliza; não governa. A gritaria chama a atenção; não substitui um contrato político sério com o país.
Aqui a Direita tem de assumir a sua quota-parte de responsabilidade histórica. Falhou menos por excesso ideológico e mais por ausência de projeto. Falhou por medo de assumir posições claras, por receio de perder o centro político e por dependência excessiva do curto prazo. Durante demasiado tempo preferiu reagir à esquerda em vez de se afirmar como alternativa substantiva. Quando o sistema começou a ser contestado, a Direita institucional não tinha discurso, narrativa nem proposta suficientemente mobilizadora.
A Direita que defendo é uma Direita ética, humanista, conservadora e democrática. Uma Direita que assume a rutura, mas não abdica do reformismo nem do respeito pelas instituições. O humanismo e a democracia não são monopólio discursivo da esquerda. Pelo contrário: são condições indispensáveis para qualquer alternativa política credível. Essa Direita deve assumir erros, falhas e responsabilidades, e apresentar-se como alternativa fiável, capaz de oferecer estabilidade sem estagnação e mudança sem aventureirismo.
Neste quadro, a posição do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, merece análise crítica sem complacências. A opção por uma abstenção estratégica quanto a apoios presidenciais foi um cálculo político defensivo. Não existe obrigação moral de indicar voto. Mas a neutralidade em momentos decisivos nunca é neutra nos seus efeitos. Esta atitude comunica hesitação e abdicar de liderança ideológica. Garante estabilidade institucional no curto prazo, facilita governação e aprovação de orçamentos, mas tem custos simbólicos profundos.
Montenegro encontra-se numa encruzilhada difícil. Se se afasta do Partido Socialista, valida a narrativa de Ventura de que PS e PSD são faces do mesmo sistema, reforçando o discurso de rutura. Se se aproxima, aliena um eleitorado de centro-direita cada vez mais desconfiado. Se apoia explicitamente Ventura, reconhece o líder da oposição como líder da Direita. Ao optar pelo silêncio, ganha tempo institucional, mas perde tempo histórico.
Estas Presidenciais intensificaram o debate esquerda-direita em Portugal. Esta clarificação pode ser saudável, mas comporta riscos reais de polarização excessiva. Evitá-la exige mais do que apelos vagos à moderação: exige liderança, projeto e coragem política. Exige que a Direita abandone a fragmentação crónica e aceite que sem cooperação estratégica — sem uma verdadeira articulação ou federação — não haverá alternativa credível de poder. A Esquerda normalizou a cooperação; a Direita sacralizou a divisão.
Estas eleições não foram um ponto de chegada. Foram um ponto de não retorno. O que esteve em causa não foi apenas quem ocupa Belém, mas quem lidera, representa e estrutura o espaço político à Direita do sistema. A rutura, por si só, não basta. A indignação mobiliza, mas não estrutura. O confronto chama a atenção, mas não governa.
A Direita portuguesa precisa de dar o passo que até agora tem evitado: transformar a rutura emocional num contrato político. Um contrato claro, assumido, exigente e orientado para o longo prazo. Um contrato que diga o que propõe ao país, quais são os seus limites, quais são as suas prioridades e quais são as responsabilidades que está disposta a assumir quando falha. Um contrato que coloque o interesse nacional acima de egos, idolatrias partidárias e guerras internas.
Sem esse contrato político, a Direita continuará a vencer batalhas simbólicas enquanto perde o essencial: a capacidade de liderar Portugal. Estas eleições colocaram-na perante o espelho. Um espelho que não devolve uma imagem confortável, mas devolve a verdade. E, na política, ignorar a verdade é sempre o primeiro passo para a irrelevância.
