Escolher um Presidente não é escolher um partido
Aproxima-se o momento em que os portugueses escolherão o próximo Presidente da República e, como tal, é tempo de uma reflexão séria sobre qual o candidato que melhor reúne o perfil adequado para o mais alto cargo da magistratura nacional.
As eleições presidenciais distinguem-se de todas as outras. Não está em causa a escolha de um executivo nem de uma maioria parlamentar, mas sim de uma personalidade com a missão de representar a República Portuguesa, garantir o regular funcionamento das instituições democráticas e exercer um papel moderador num sistema político cada vez mais polarizado. Por essa razão, os critérios de escolha não podem ser meramente ideológicos. A personalidade, a maturidade política, o sentido institucional e a visão estratégica assumem um peso determinante.
Tudo indica que estas eleições se disputarão entre cinco principais candidatos. Sobre cada um deles, deixo a minha reflexão.
Pela primeira vez desde Ramalho Eanes, existe a possibilidade de um ex-militar ascender à Presidência da República. A proveniência de Henrique Gouveia e Melo não é, por si só, um problema. O que suscita reservas é o facto de a sua experiência militar não se traduzir automaticamente em preparação política. Ao longo do seu percurso público recente, tem revelado uma preocupante imaturidade política, marcada por incoerências ideológicas e declarações pouco consistentes. Ora defende um Estado reduzido na economia, ora aponta Mário Soares como principal referência política; afirma situar-se entre o socialismo e a social-democracia, um espaço ideológico que, na prática, não existe. Estas contradições revelam falta de densidade política e de pensamento estruturado, o que, a meu ver, o desqualifica para o cargo de Presidente da República.
No caso de André Ventura, para mim, a questão é clara: não tem o perfil institucional exigido para o cargo. Não coloco em causa a legitimidade democrática do seu partido, nem entro no discurso fácil e intelectualmente pobre que defende a sua ilegalização. O Chega é um partido legal, validado pelo Tribunal Constitucional, e representa uma parcela dos eleitores portugueses. Questionar isso é negar princípios básicos do Estado de direito.
O que critico em André Ventura é a sua forma de atuação política. O recurso frequente à desinformação, o uso de linguagem inflamada, gestos pouco dignos no parlamento e uma postura constantemente conflituosa são incompatíveis com a exigência de elevação, contenção e respeito institucional que se impõe a um Presidente da República. O chefe de Estado deve ser um fator de estabilidade, não de tensão permanente.
Relativamente a Marques Mendes, trata-se de um político experiente, conhecedor do sistema e das suas dinâmicas. Ainda assim, a sua candidatura parece representar a continuação de um modelo presidencial já esgotado, uma espécie de “marcelismo reciclado”, sem verdadeira inovação. Falta-lhe uma visão clara e mobilizadora para o futuro do país, em particular para os jovens. O anúncio de que pretende a integração de jovens no Conselho de Estado, embora simbólico, não passa de um gesto politicamente vazio, sem impacto real na participação efetiva das novas gerações na vida política nacional.
No campo da esquerda, surge António José Seguro. Reconheço-lhe serenidade, educação e uma postura institucionalmente correta. Contudo, considero que representa uma das principais causas do atraso estrutural de Portugal: o socialismo enquanto modelo político dominante nas últimas décadas. Enquanto ex-ministro de António Guterres e ex-secretário-geral do Partido Socialista, Seguro está intrinsecamente ligado a um ciclo político marcado pelo imobilismo reformista, pelo crescimento económico anémico e por uma excessiva dependência do Estado, não apresentando uma rutura clara com esse legado.
Por fim, e para mim, a melhor escolha para Presidente da República nestas eleições é João Cotrim de Figueiredo. Não representa integralmente o meu espaço ideológico (ao contrário do que muitos assumem, Cotrim não é um político de direita tradicional). Ainda assim, é o único candidato que demonstra uma visão de longo prazo para o país que ambiciono: uma visão assente no alívio fiscal, na atração de investimento, no crescimento económico sustentado, na inovação tecnológica e na modernização do Estado.
Acresce que revelou capacidade de adaptação à realidade social portuguesa, nomeadamente no que respeita à imigração. Se em 2022 defendia uma flexibilidade nos fluxos migratórios, hoje demonstra uma leitura mais realista dos seus impactos e da necessidade de uma regulação responsável. Essa capacidade de rever posições não é fraqueza, é sinal de maturidade política.
Consigo imaginar um Portugal mais próspero, mais competitivo e mais confiante no futuro. E é por acreditar que o Presidente da República deve ser um garante da estabilidade institucional, da responsabilidade democrática e da visão estratégica do país que a minha escolha é clara: João Cotrim de Figueiredo.
Autoria: Duarte Marques
