Manuel João Vieira: O Heterónimo Vivo de Fernando Pessoa na Política Portuguesa

O Fingidor de Belém: Manuel João Vieira ou Heterónimo de Pessoa

O Fingidor de Belém - Manuel João Vieira - A opinião de Tiago Oliveira

Dizia Fernando Pessoa que "o poeta é um fingidor", que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Ora, se olharmos para o panorama político português dos últimos trinta anos, cheios de tecnocratas engravatados e discursos de plástico, somos forçados a admitir que o maior poeta da nossa praça não veste fato de marca, mas sim umas calças de cabedal ou um fato de ditador de opereta. Falo, evidentemente, de Manuel João Vieira.

É tempo de deixarmos de olhar para Vieira apenas como o "candidato do gozo". É necessário levá-lo a sério, precisamente porque ele é o único que não se leva a sério. Ao analisarmos a sua "obra" política, percebemos que Vieira não é apenas um músico ou um "performer"; ele é a reencarnação pós-moderna e caótica da heteronímia de Pessoa. Ele é a genialidade crítica disfarçada de loucura.

Onde Pessoa fragmentou o "Eu" para sentir tudo de todas as maneiras, Vieira fragmentou-se em Lello Universal, Orgasmo Carlos e no Candidato Vieira para expor o ridículo de tudo e de todos.


Álvaro de Campos e a Economia do Absurdo
Vejamos a semelhança gritante com Álvaro de Campos. O Engenheiro de Tavira queria "comer peças de metal" e sentia um tédio avassalador pela vida burguesa. O que faz Manuel João Vieira? Explode a etiqueta burguesa com propostas económicas que são pura poesia dadaísta.

Quando ele propõe "o regresso do escudo, mas do escudo de 15 tostões" (ou a mais recente "Criptonota de Santo António"), Vieira não está apenas a dizer uma piada. Ele está a fazer uma crítica feroz à nossa soberania ilusória e à complexidade financeira que ninguém entende. É um Ultimatum futurista em direto: se o dinheiro não vale nada para o povo, então vamos inventar uma moeda que assuma a sua própria inutilidade.

A genialidade da sua crítica reside na hipérbole. Os políticos do sistema prometem o aumento do poder de compra? Vieira promete um "Ferrari para todos". Os políticos prometem melhorar as infraestruturas? Vieira promete "vinho canalizado". Ao levar a promessa eleitoral ao absurdo, ele expõe a vacuidade das promessas "sérias". Ele é um Alberto Caeiro que, em vez de olhar para as flores e não ver significados, olha para o Orçamento de Estado e não vê dinheiro. É um materialismo bruto: o povo não quer saber do défice, o povo quer saber se há felicidade imediata.

Contra a Estupidez dos Extremos: O Cosmético e o Moral
Mas é no combate à polarização política que a sátira de Vieira se torna verdadeiramente cirúrgica. Num tempo em que a "extrema-direita" cresce com discursos de ódio e a "extrema-esquerda" se fecha em trincheiras morais, Vieira ridiculariza ambos com uma elegância demolidora, desmoralizando o estigma cultural por ambos promovidos de formas opostas. 

Face ao racismo e à xenofobia latente de certos populismos, Vieira não faz discursos inflamados; propõe, com a maior seriedade, "tratamentos de pele para uniformizar a cor de todos os portugueses". Ao reduzir o preconceito racial a uma questão de estética dermatológica, ele desmonta a estupidez do racismo.  
E para a esquerda puritana ou radical? Ele responde com a criação do "Extremo-Centro Esquerda-Direita" e com o hedonismo obrigatório de Vieirópolis, onde a moralidade rígida é substituída por "dançarinos e put*s em cada esquina". Ele recusa ser arrumado numa gaveta ideológica porque percebe que, muitas vezes, os extremos tocam-se na sua falta de humor e humanidade.

A Bomba V: Guerra e Paz em 5 Segundos
Talvez o momento mais "Camposiano" da sua recente campanha seja a proposta da Bomba V. Enquanto o mundo discute a NATO e orçamentos de defesa com uma seriedade de quem joga à batalha naval com vidas reais, Vieira propõe um laser de ficção científica ("ficção científica pura", nas suas palavras) capaz de atingir qualquer lugar do mundo em cinco segundos.

Ao sugerir uma arma imaginária que acaba com todas as máscaras dos líderes mundiais (como ver o que está por baixo da "máscara" de Trump e Putin), Vieira ridiculariza a própria ideia de dissuasão nuclear. Se a guerra é absurda, a defesa nacional deve ser igualmente absurda. É uma sátira que nos diz: "se vamos todos morrer, ao menos que seja com efeitos especiais dignos de um filme B".

O "Cocainómano" e a Transparência Brutal  
A crítica de Vieira atinge o pico quando aborda a justiça e a moral. Ao assumir a persona do "candidato cocainomaníaco" ou ao sugerir que Portugal deveria tornar-se uma plataforma giratória de estupefacientes para pagar a dívida, ele faz o que Álvaro de Campos fez no _Opiário_, mas com sentido prático.  
E a sua tese de que "é preciso democratizar a corrupção" ou criar o subsídio de "risco de prisão" para políticos? É a crítica mais feroz feita ao sistema partidário. Ele não diz que vai combater a corrupção (uma mentira habitual); ele diz que a vai organizar. "Sou um alcoólico, mas sou um alcoólico conhecido", diz ele. É a honestidade pelo avesso.

O Desassossego Constitucional e a Saúde por Decreto
Mas talvez a proposta mais pessoana — e simultaneamente a mais trágica — seja a intenção de instituir o "direito à felicidade" na Constituição.  
Aqui, Vieira toca no nervo exposto de Bernardo Soares e da gestão pública. Perante o caos no Serviço Nacional de Saúde, Vieira não propõe contratar mais médicos ou fechar urgências; ele vai à raiz do problema com uma solução administrativa brilhante: "Vou ilegalizar a doença e multar quem tosse".

Esta medida é a crítica definitiva a qualquer Ministro da Saúde. Se o Estado trata a saúde com decretos e folhas de Excel, ignorando a realidade biológica dos utentes, então por que não proibir, por lei, que as pessoas fiquem doentes? É o Estado Novo burocrático levado ao paroxismo: se a realidade incomoda o governo, multa-se a realidade.

Manuel João Vieira é, portanto, o nosso heterónimo vivo. Numa das suas intervenções mais antigas, disse: "se eu for eleito, demito-me imediatamente". Isto é Bernardo Soares a perceber que a ação é inútil. Vieira recorda-nos que, num país onde a política tantas vezes parece ficção, talvez só um "fingidor" profissional, que promete "desportivizar os portugueses" à força, seja capaz de dizer a verdade.

Se Pessoa criou heterónimos não apenas para fazer Literatura, mas para dinamitar a modorra mental do país e projetar um Quinto Império do espírito, Vieira cria heterónimos para implodir o sistema pelo ridículo, oferecendo-nos um 'Quinto Império' do absurdo — onde a glória espiritual é substituída por vinho canalizado. A missão é a mesma: usar a máscara para dizer a verdade nua. E entre um político engravatado que finge que fala verdade e um 'maluco' que nos avisa, de antemão, que está a mentir, o segundo é, historicamente, o mais confiável.

Tiago Oliveira 

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Declaração de uso: Foi utilizado a IA generativa Gemini 3 para estruturar o texto e realizar algumas correções históricas e foi utilizado o Perplexity para confirmar algumas das declarações proferidas pelo candidato presidencial Manuel João Vieira.

Politicamente Incensurável

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